Política da Delicadeza

Imagem extraída de www.pinterest.com.

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Toda educação deveria começar por ensinar às nossas crianças a importância fundamental da delicadeza, em todos os contextos, situações e relações que a vida lhes apresenta. Muito mais importante do que saber português, matemática ou geografia, por exemplo, ou do que ser capaz de passar no vestibular, construir carreira e ganhar dinheiro. Mais essencial do que chegar às melhores ideias, e defendê-las ou conquistá-las. Para ficarmos em temas que ainda parecem constituir as principais preocupações de muitos pais e professores.

Ao mesmo tempo, deveríamos ensiná-las meios efetivos de vencer o medo de afirmar e reafirmar certos valores mais importantes e essenciais, tais como o respeito e a tolerância, e de colocá-los sempre à frente de outros mais mundanos e materialistas (ganhar dinheiro ou status social), e sobretudo de observá-los em cada palavra, gesto ou comportamento que a vida lhes pedir.

Deveríamos ensiná-las a desenvolver a qualidade da empatia de se imaginar no lugar de outras pessoas, e de tratá-las sempre bem e com respeito absoluto, por princípio e como ponto de partida para qualquer atividade ou relação pessoal ou social que nos envolva.

No mundo hostil e agressivo em que vivemos, onde a ambição fútil, desmedida e desenfreada é ainda muito bem vista, estimulada e até premiada, levando a comportamentos marcados por uma competitividade fria, selvagem, aética e desesperada, é preciso coragem para ser delicado e se abster de gestos e palavras mais ríspidos e violentos.

Precisamos reaprender - e ensinar nossas crianças - a olhar e enxergar o outro à nossa frente, a imaginar o que seria estar na sua pele. Em nossos meios mais diretos e familiares, com as pessoas mais próximas, nossos pais, filhos, esposas e maridos, mas também em nossa rua, bairro, cidade e país. No mundo. Deveríamos recuperar ou desenvolver a qualidade, hoje rara, de nos imaginar na situação dos refugiados e perdidos da Síria, do Afeganistão ou de países africanos, por exemplo. Imaginar o nível de sofrimento em que se encontram neste instante, as situações e experiências terríveis que estão a vivenciar. Esta qualidade de nos identificarmos com os outros, próximos ou distantes, semelhantes ou diferentes, deveria ser ensinada e estimulada em nossos lares e escolas. Antes e como fundamento essencial de todas as outras matérias.

A tão sonhada e propalada paz no mundo só assim será conquistada. Nenhum projeto de política pública ou diploma de grande universidade servirão se não estiverem solidamente fundamentados em princípios como esse.

O que tem faltado é delicadeza. A delicadeza original que aprendíamos em casa, e mais tarde desaprendíamos no colégio. A delicadeza de tratar bem as pessoas, em qualquer contexto ou situação. Absolutamente todas as pessoas, mesmo aquelas de quem, por alguma razão, não gostemos tanto. Mesmo as que nos irritam ou nos tiram do sério de verdade. Sem nenhuma exceção, enquanto seres humanos, todos merecem e sempre merecerão nosso respeito. Sempre.

Este é um problema que permeia todos os âmbitos de nossas vidas, os contextos familiar, social, profissional e, claro, a política. Os ânimos se exaltam facilmente e simplesmente não nos controlamos, partimos logo para o ataque, discutimos e brigamos. Nos tornamos agressivos, violentos. Nas palavras, gestos e ações. Um projeto ou ideia é sempre colocado à frente ou acima da necessidade de zelarmos pela boa relação com nossos interlocutores, de tratá-los bem, independentemente de qualquer coisa, ainda que entre nós vigore a mais profunda discordância.

Em algum momento de nossa história, desenvolveu-se uma certa ideia de que a indignação seria um valor social nobre e necessário. Muitos pais buscam estimular nos filhos esse sentimento por acreditarem que se trata de algo crucial na formação do seu caráter político e social. Não bastaria ser sábio ou inteligente. Seria preciso ir além: conhecer a realidade e desenvolver a capacidade de se indignar profundamente com cada erro, imperfeição ou injustiça que presenciarem, em casa, no trabalho, na política do país. Para esses pais, a indignação funcionaria como uma espécie de chama ou combustível que levaria à ação mais justa e necessária, voltada a corrigir o mundo em que vivemos. A indignação nos levaria a denunciar, argumentar, defender veementemente ideias e ideais, a nos filiar a partidos, projetos e movimentos, ou a brigar até o fim pela mudança que sonhamos.

Ocorre que todo esse movimento interno de agitação indignada muitas vezes descamba em atitudes e práticas mais agressivas e violentas. Mal trabalhada ou administrada, a indignação é perigosíssima, pois pode levar ao desenvolvimento de uma série de sentimentos e atitudes extremamente nocivos: excesso de descontrole, raiva e animosidade, preconceito e intolerância, arrogância e desrespeito, violência verbal e física, direcionados a tudo e todos que considerarmos obstáculos ou inimigos de nossas causas.

Para esses ativistas mais inflamados, não basta ostentar bandeiras, apontar problemas ou representar as melhores ideias. É preciso conquistar na luta e à força, muitas vezes a qualquer custo, o projeto que perseguem. Desenvolve-se a noção, extremamente perigosa, de que há certos fins que justificariam todos os meios.

Estamos perdendo a noção importantíssima de que a forma como desenvolvemos nossos projetos é muito mais importante do que os resultados que atingimos. Como dizia Gandhi: “você deve ser a mudança que deseja ver no mundo”. O Mahatma é o melhor exemplo. Ele personificou a mudança que queria, e atingiu muitos dos seus objetivos. Tornou-se um ícone mundial, embora curiosamente ainda muito pouco seguido ou compreendido. É um exemplo pessoal poderosíssimo de que é possível sim aliar um comportamento pacífico e respeitoso a uma consistência absoluta de propósitos. Com uma trajetória pessoal impressionante, demonstrou como é possível defender uma ideia de modo firme e veemente sem levantar a voz e partir para a agressividade, sem retrucar a violência que recebemos com outra violência, até fazermos valer nossas ideias e gerarmos alguma mudança no mundo ao nosso redor. Como paciência, suavidade, delicadeza. Mesmo sob pauladas ou a artilharia dos adversários, Gandhi nunca abriu mão do seu compromisso absoluto com formas não violentas de expor e manifestar suas ideias e pensamentos (“satyagraha”). Em Gandhi, o gesto silencioso era mais veemente que a palavra.

Nunca deveríamos perder de vista que a única forma de alcançarmos a tão sonhada paz mundial é desenvolvermos em nós próprios essa capacidade de enxergar o outro à nossa frente, e de respeitá-lo, antes e acima de tudo, sempre. Precisamos desenvolver, ou recuperar, a noção de que ninguém é dono da verdade.

Já imaginaram uma sociedade em que, mesmo discordando, todos se respeitassem e se tratassem com delicadeza? Um mundo regido e governado pela empatia. Todos buscando se enxergar, se compreender e se respeitar, o tempo todo. Os problemas seriam infinitamente menores e menos graves. A política seria certamente mais simples e mais humana. Bastariam as ideias, elaboradas em consenso, numa atmosfera de respeito e dignidade entre todos os envolvidos.

Para isso teríamos todos que abrir mão de nossa própria violência pessoal, cultivada e desenvolvida desde quando éramos bem pequenos. Porque, na realidade, é o que esse mundo insano tem nos ensinado: a desconsiderar pessoas que se colocarem no caminho de nossos sonhos, ideias e ideais, maltratando-as se necessário. Em casa, no trabalho, na rua, na política.

Para construirmos um mundo mais pacífico, teríamos que desenvolver a atitude oposta: abrir mão de todas as formas de violência e perseverar em comportamentos mais pacíficos, até as últimas consequências. Difícil, claro, mas não impossível. Como aconteceu na Índia de Gandhi, os primeiros talvez se tornem mártires de um novo processo humano e social, mas aos poucos esse movimento ganha corpo e termina por gerar as mudanças que queremos.

Na política nacional, isso começaria por baixarmos as armas e tratarmos os outros com mais respeito e consideração. Quem odeia a Dilma, o Aécio, o Cunha, ou qualquer ideia ou projeto diferente, deveria se lembrar de que estão todos a tratar com seres humanos, o tempo todo. Equivocados talvez, mal-intencionados até, mas seres humanos. Não deveríamos nunca nos esquecer de que temos que tratá-los sempre com respeito e consideração, em qualquer circunstância, contexto ou oportunidade. Sempre, independentemente de como eles nos tratarem. Antes de nossos projetos ou ideias, deveria vir o respeito ao ser humano que está à nossa frente.

A verdadeira educação se preocuparia em ensinar a aplacar nossos próprios ódios, violências, preconceitos e intolerâncias. E a desenvolver a qualidade da empatia. De nada adianta um grande projeto de política pública no plano intelectual, se antes não tivermos cultivado um modo ético e respeitoso de trabalhar com as pessoas.

Enfim, deveríamos ensinar nossas crianças, e a criança que existe em cada um, a atacar ou criticar apenas as ideias com as quais não concordamos, distinguindo-as das pessoas que as defendam. Discordar das ideias, respeitando as pessoas. Por mais incomodas ou abjetas que a nós aparentem ser essas ideias.

Se mantivéssemos sempre essa postura de empatia, respeito e consideração pelo outro, com constância e paciência, todo o resto viria de forma mais fácil e suave. Dados, estatísticas, projetos e políticas, as artes e as ciências, as ideias mais brilhantes, floresceriam numa atmosfera de mais harmonia e civilidade. De forma mais limpa, pacífica e constante. Como fez o Mahatma.

Prensa Premiada

Na Londres do século dezoito, o silêncio do réu era considerado ofensa seriíssima à corte de Old Bailey. Não havia ainda a figura do advogado. Esperava-se que o próprio acusado falasse em sua defesa. Se se recusasse e insistisse no silêncio, a corte reagia de forma atroz: impunha-lhe tortura consistente em fazê-lo se deitar em chão de pedra, nu, com pernas e braços abertos e esticados, mãos e tornozelos amarrados de forma a estender bem o corpo e impedir os movimentos. Então, sobre seu peito era colocada uma placa de ferro bem pesada e, aos poucos, pesos de metal ou pedra iam sendo acrescentados sobre a placa, aumentando gradualmente a pressão sobre o tronco do supliciado, sufocando-o até a morte ou a completa submissão. Se não falasse, perecia em meio a dores terríveis. Durante a sevícia, a alimentação era parquíssima: porções mínimas de cevada e água lhe eram ministradas. A morte viria por asfixia, acompanhada de inanição. A tortura podia durar dias. A intenção era fazer a acusado mudar de ideia e se pronunciar perante a corte.

William Spiggot sendo submetido à prensa na prisão de Newgate, Londres, século XVIII. Imagem encontrada em www.exclassics.com/newgate/ng162.htm.

William Spiggot sendo submetido à prensa na prisão de Newgate, Londres, século XVIII. Imagem extraída de exclassics.com.

É bem compreensível que boa parte dos acusados submetidos à famigerada prensa mudavam de ideia e terminavam por falar. Quando isso acontecia, eram erguidos imediatamente, reavidados a goles de brandy, e tão logo recuperassem o fôlego, levados de volta à presença do juiz.

Festejada no Brasil como a boa nova da política criminal, o instituto da delação premiada, como vem sendo praticado, assemelha-se muito à tortura medieval. Mais leve e rebuscada, mais psicológica que física (embora nossos presídios não sejam propriamente um passeio no parque), ainda sim é uma forma de tortura. Assemelha-se à velha prensa sobretudo pela indignidade de se usar a prisão como instrumento de pressão para forçar o acusado a falar.

Em direito penal, os fins nunca podem justificar os meios.

Réquiem para um Sonho

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Jovem advogado: Boa tarde, sou advogado do Sr João da Silva e gostaria de ver o inquérito instaurado contra ele.

Delegado de Polícia: Boa tarde Doutor, o inquérito está comigo. O Senhor já falou com seu cliente, já sabe do que se trata?

Advogado: Por alto, mas para ter uma idéia melhor só vendo o inquérito, sabe como é...

Delegado: Olha Doutor, já lhe adianto que a situação do seu cliente é muito grave, tem muita coisa contra ele, escuta telefônica, material apreendido, testemunhas...

Advogado: Mais uma razão para o Senhor me conceder vista do inquérito.

Delegado: Acredite Doutor, seu cliente está encrencado.

Advogado: Quem sou eu pra duvidar, mas ainda assim preciso ver o inquérito, fazer uma leitura técnica, entende?

Delegado: Calma doutor. Entendo a situação do seu cliente, sei que ele tem família, nome e reputação a zelar, por isso acho que para ele não valeria a pena passar por todo esse constrangimento...

Advogado: De fato, por isso eu precisaria ver o inquérito para conhecer melhor o caso e prepará-lo para seu depoimento...

Delegado: Doutor, confie em mim, eu conheço bem o caso e lhe garanto que seu cliente está em maus lençóis. Não é necessário ver o inquérito, basta confiar em mim. Aliás, poderíamos resolver esse assunto de vez, sem maiores preocupações, entende?

Advogado: Entendo, mas infelizmente sem ver o inquérito não posso me posicionar...

Delegado: Doutor, se me permite vou ser muito franco e direto com o Senhor, lhe garanto que seu cliente está ferrado, há razões suficientes para pedir sua prisão, qualquer juiz e promotor concordariam. O advogado do outro investigado já me disse que eles não têm nenhum interesse na continuidade disso e se dispõem a pagar dez mil. O Senhor veja aí quanto arranca do seu cliente e damos o assunto por encerrado.

Advogado: Também vou ser franco, não trabalho dessa forma.

Delegado: O Senhor é mesmo criminalista?

Advogado: Sim, há três anos.

Delegado: Então deve estar prestando concurso. Ministério Público talvez?

Advogado: Não, sou e quero ser advogado.

Delegado: Não parece. Um verdadeiro criminalista nunca é inflexível. Ele conhece bem os riscos de cada caso e toma a decisão certa na hora certa. Aqui na área criminal é assim, o buraco é mais embaixo, é preciso ter estômago.

Advogado: Sei.

Delegado: Faz uma coisa Doutor, vai lá falar com seu cliente, faça-lhe um relato pormenorizado dos riscos que o Senhor bem sabe que ele corre e veja se ele está disposto a cooperar, veja lá quanto ele pode pagar para encerrarmos logo este assunto, sem traumas para ninguém. Assim é mais rápido e seguro, todos ganham, ninguém perde...

Já é noite quando o jovem advogado entra em casa e beija a fronte da mulher, grávida do primeiro filho. O novato vai dormir sem saber mais se é ele quem se navega, ou se quem lhe navega é o mar.