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Jovem advogado: Boa tarde, sou advogado do Sr João da Silva e gostaria de ver o inquérito instaurado contra ele.

Delegado de Polícia: Boa tarde Doutor, o inquérito está comigo. O Senhor já falou com seu cliente, já sabe do que se trata?

Advogado: Por alto, mas para ter uma idéia melhor só vendo o inquérito, sabe como é...

Delegado: Olha Doutor, já lhe adianto que a situação do seu cliente é muito grave, tem muita coisa contra ele, escuta telefônica, material apreendido, testemunhas...

Advogado: Mais uma razão para o Senhor me conceder vista do inquérito.

Delegado: Acredite Doutor, seu cliente está encrencado.

Advogado: Quem sou eu pra duvidar, mas ainda assim preciso ver o inquérito, fazer uma leitura técnica, entende?

Delegado: Calma doutor. Entendo a situação do seu cliente, sei que ele tem família, nome e reputação a zelar, por isso acho que para ele não valeria a pena passar por todo esse constrangimento...

Advogado: De fato, por isso eu precisaria ver o inquérito para conhecer melhor o caso e prepará-lo para seu depoimento...

Delegado: Doutor, confie em mim, eu conheço bem o caso e lhe garanto que seu cliente está em maus lençóis. Não é necessário ver o inquérito, basta confiar em mim. Aliás, poderíamos resolver esse assunto de vez, sem maiores preocupações, entende?

Advogado: Entendo, mas infelizmente sem ver o inquérito não posso me posicionar...

Delegado: Doutor, se me permite vou ser muito franco e direto com o Senhor, lhe garanto que seu cliente está ferrado, há razões suficientes para pedir sua prisão, qualquer juiz e promotor concordariam. O advogado do outro investigado já me disse que eles não têm nenhum interesse na continuidade disso e se dispõem a pagar dez mil. O Senhor veja aí quanto arranca do seu cliente e damos o assunto por encerrado.

Advogado: Também vou ser franco, não trabalho dessa forma.

Delegado: O Senhor é mesmo criminalista?

Advogado: Sim, há três anos.

Delegado: Então deve estar prestando concurso. Ministério Público talvez?

Advogado: Não, sou e quero ser advogado.

Delegado: Não parece. Um verdadeiro criminalista nunca é inflexível. Ele conhece bem os riscos de cada caso e toma a decisão certa na hora certa. Aqui na área criminal é assim, o buraco é mais embaixo, é preciso ter estômago.

Advogado: Sei.

Delegado: Faz uma coisa Doutor, vai lá falar com seu cliente, faça-lhe um relato pormenorizado dos riscos que o Senhor bem sabe que ele corre e veja se ele está disposto a cooperar, veja lá quanto ele pode pagar para encerrarmos logo este assunto, sem traumas para ninguém. Assim é mais rápido e seguro, todos ganham, ninguém perde...

Já é noite quando o jovem advogado entra em casa e beija a fronte da mulher, grávida do primeiro filho. O novato vai dormir sem saber mais se é ele quem se navega, ou se quem lhe navega é o mar.