Imagem extraída de global.org.br.
A crise política e econômica que o Brasil atravessa em 2016 é interna. A aparência externa da política e da economia não passam de sintomas (e consequências) do que vai no interior de cada pessoa que integra esta comunidade. Se somos empáticos e compassivos, colhemos paz e tranquilidade. Se somos generosos, abundância. Se somos agressivos, violência em suas variadas formas.
Assim, a política e a economia de hoje são reflexos diretos de nosso histórico descaso com os mais pobres do país, e também com os índios, o meio ambiente, as mulheres, o espaço e a coisa pública, os negros, as crianças, os presos, etc. A grande crise é consequência direta de nosso modo de ser demasiadamente permissivo, egoísta, auto-condescendente e profundamente agressivo de tratar tudo o que é público ou coletivo, e não pertence aos nossos pequenos mundinhos ocupados por tudo o que consideramos nosso: nós próprios, nossos objetos e, nos melhores casos, nossos familiares. Esses nossos pequenos egoísmos da vida cotidiana levam-nos a não hesitar em empregar pequenas mentiras, jeitinhos e enganos, atalhos e subterfúgios, e até pequenas propinas, para azeitar as mais ínfimas dificuldades.
A grande corrupção é consequência direta dessa nossa pequena corrupção de cada dia. A excessiva permissividade de nossa cultura, que nos faz aceitar ou mesmo se engajar em pequenas sonegações de impostos, por exemplo, ou pagar o guarda de trânsito para se livrar de alguma multa, ou contratar um despachante para driblar burocracias, ou instruir subordinados a mentir para evitar algum indesejado, ou ludibriar os nossos pais, filhos, maridos e mulheres, tudo isso também gera o tipo de político que temos e a grande corrupção que nos assola. Reclamamos que os políticos mentem e desviam, como se eles fizessem parte de outro planeta e nós não tivéssemos nada a ver com eles, como se fossemos puros e eles não. Mobilizamos toda a nossa raiva e a direcionamos a eles, clamando por severas punições, autos-de-fé e linchamentos em praça pública, eximindo-nos de qualquer responsabilidade pelo fato de sermos sempre nós, enquanto grupo, que criamos essa realidade. Os políticos são consequências diretas, exponencialmente ampliadas, de nossos pequenos desvios.
O enorme e antigo descaso com os mais pobres se reflete em um entorno social extremamente violento, e num sistema de justiça demasiadamente seletivo, vingativo e violento. Decorre do fato de termos sido o último país a abolir a escravidão, e até hoje não termos incluído seus descendentes, encarcerando-os em números assustadores. Se não nos dedicamos com verdadeira entrega e seriedade a melhorar as vidas de quem tem menos e vive as agruras da vida em nossos subúrbios, favelas e caatingas, sem acesso a educação, saúde ou saneamento, sujeito a uma gama enorme de intempéries e violências, sem acesso à polícia e à justiça, temendo-as mais que as respeitando, pois só conhecem a face mais brutal e desumana dessas duas, tudo só piorará. Todo esse histórico descaso com os mais pobres gera e retroalimenta o enorme monstro da violência urbana e social, traduzida em índices estratosféricos de homicídios e estupros, por exemplo.
Também gera a percepção errônea de que o que falta é justiça, e assim se transformam os juízes e promotores em justiceiros sociais, como se a solução fosse ainda mais prisões e condenações. O Brasil já é o quarto país que mais encarcera no mundo, e a violência só aumenta, prova de que prisão não é a solução. Na realidade, sempre que um problema chega à instância última da justiça é porque falharam todas as anteriores de cuidado e assistência social. Se um problema chega ao judiciário é porque já perdemos todos enquanto país. É mais um grave sintoma de nossa falência. Comemorar os resultados da Lava Jato é como comemorar o diagnóstico de um câncer. Celebrar suas prisões e condenações é como celebrar a quimioterapia. Na verdade, não há nada a comemorar, e não deveríamos esperar as mudanças que sonhamos da força-tarefa de Curitiba.
Da mesma forma, o histórico descaso com os índios e o meio ambiente (sim, estão ligados) gera a grave poluição que nos aflige nas grandes cidades, o desmatamento, a crise hídrica, as secas e as enchentes que se agravam a cada dia, além de uma série infindável de problemas crônicos e crescentes de saúde física e mental. A bituca de cigarro que lançamos no meio fio, o lixo que não selecionamos e largamos em calçadas, córregos e rios. O fato de sermos o país que mais abate gado bovino no mundo. Tudo isso se liga ao iminente desastre ambiental que já começamos a viver, mas ainda estamos por conhecer seus efeitos de médio e longo prazo, e a enorme conta social da poluição que seguimos a produzir.
Não é mero acaso que a grande corrupção abasteça e se alimente do atual grande símbolo de nosso descaso maior com o meio ambiente: a hidrelétrica de Belo Monte.
Como se percebe, os problemas exemplificados são todos ancestrais e vêm sendo cultivados há muito tempo, por um acúmulo de pequenas, médias e grandes atitudes impensadas ao longo de gerações. Da mesma forma, as soluções não virão do dia para a noite. É necessária uma verdadeira e profunda mudança de visão, que leve a uma nova consciência de respeito e consideração com as pessoas ao nosso redor, um compromisso firme e indelével com a natureza e as gerações futuras, para revertermos o padrão histórico de descaso e autodestruição que empreendemos desde os primórdios de nossa história. Se de fato quisermos mudar nossas vidas para melhor, é necessário parar com essa mania infantil de culpar o mundo externo por problemas que nascem sempre em nós próprios, frutos diretos de nosso egoísmo e indiferença social. Precisamos todos assumir nossas cotas de responsabilidade pelos políticos que criamos, pelos pobres que descuidamos, pelo ambiente que destruímos, pelos índios que maltratamos, pelos negros que encarceramos, pelos presos que esquecemos.
Toda crise começa em nós, sempre. Temos que parar de olhar para fora, demonizando ou idolatrando outras coisas e pessoas, sempre no mundo externo, procurando os próximos bodes ou salvadores, e passar a olhar para dentro de nós próprios, para finalmente realizar que somos nós e sempre nós que, a cada instante e em cada ação ou omissão, criamos a realidade que nos circunda. Se, com profunda honestidade, assumirmos a responsabilidade essencial de mudar nossos próprios hábitos e costumes, poderemos então começar, aqui e agora, a construir o mundo que gostaríamos para nossos filhos. Não haverá políticos salvadores, soluções mágicas e imediatas, milagrosos projetos de lei, se antes as pessoas não mudarem. Há apenas a possibilidade de, com dignidade e muita paciência, revertermos o processo histórico de autodestruição que nos consome, e iniciarmos um novo ciclo mais humano de existência. Como tudo na vida adulta, os resultados virão a médio e longo prazo, se nos mantivermos no caminho.